Saúde preventiva realmente economiza dinheiro?

“Prevenção é mais barata que tratamento” virou frase tão repetida que perdeu força. Mas existe dado real por trás disso, ou é só discurso bonito para vender consulta? Esse artigo mostra o que os estudos efetivamente comprovam, e onde a conta fecha.
Para onde vai o dinheiro gasto em saúde hoje
Uma pesquisa da Harvard Business Review, amplamente citada em congressos de saúde no Brasil, mostra que pacientes com doenças crônicas representam 50% dos custos totais do setor de saúde. Episódios agudos (emergências, complicações súbitas) vêm em seguida, com 35% dos gastos. O investimento em medicina preventiva, por outro lado, gira em torno de apenas 5% a 14% do total.
Isso significa uma coisa direta: a maior parte do dinheiro gasto em saúde vai para tratar o que já virou problema grave, não para evitar que o problema aconteça.
O que acontece quando a prevenção é ignorada
Existe um estudo brasileiro, publicado nos Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (ABCD), que analisou dados do Datasus entre 2009 e 2014, olhando para 250.439 cirurgias de vesícula (colecistectomia videolaparoscópica) realizadas no país. O resultado: a mortalidade em cirurgias de urgência foi 4,8 vezes mais alta do que em cirurgias eletivas, ou seja, agendadas com antecedência, antes de virar emergência.
Essa diferença não acontece por acaso. Quando o problema é identificado e tratado com antecedência, o procedimento costuma ser mais simples, mais seguro e mais barato. Quando o paciente espera até a situação virar urgência, o risco sobe, e o custo do tratamento sobe junto.
O impacto do acompanhamento contínuo
Segundo dados do Observatório da Saúde Pública, a Atenção Primária à Saúde de qualidade poderia evitar cerca de 3 milhões de internações por ano no Brasil. Isso acontece porque o acompanhamento contínuo, aquele que identifica um problema antes de virar internação, reduz a necessidade de tratamentos mais caros e complexos.
Um exemplo prático: estudos sobre internações por condições sensíveis à atenção primária (ou seja, aquelas que poderiam ter sido evitadas com acompanhamento adequado) mostraram redução de mais de 50% em municípios que ampliaram a cobertura de atenção primária ao longo de anos de acompanhamento.
E o outro lado da conta: planos de saúde
Dados da ANS mostram que o índice de sinistralidade dos planos de saúde (relação entre o que é pago em mensalidade e o que é gasto em procedimentos médicos) chegou a 87,3% em 2022. Esse número reflete diretamente o peso dos tratamentos de doenças já avançadas sobre o sistema, o motivo pelo qual mensalidades sobem ano após ano.
Então, prevenção economiza dinheiro?
A resposta honesta é: economiza no que é evitável. Não existe prevenção que elimine 100% dos custos de saúde, isso seria promessa vazia. Mas existe evidência sólida de que identificar um problema cedo, antes que ele exija cirurgia de urgência, internação prolongada ou tratamento complexo, custa menos, tanto em dinheiro quanto em risco à vida.
O ponto central não é prevenção contra tratamento. É prevenção reduzindo a chance de precisar do tratamento mais caro.
